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Teus dias e tuas noites, por Edmundo Macedo – in memoriam

أرسلت بواسطة Monique Gomes في segunda-feira, 18 abril 20113 تعليقات

Ubajara Clube

Reservei esta manhã para te mandar um abração. É que a saudade mexeu nesta madrugada com os meus sentimentos. Num apertar e fechar de olhos, quase dormindo e quase acordando, te vi novamente. Sabes como? Da mesma forma que, em abril de 1989, passara ao teu lado. Quase aos escombros, com o teto escancarado para o céu, agonizavas. Suplicavas no teu clamor, piedade, aconchego e vida. Te mirei tristonho e não pude recolher as emoções a entranharem minha garganta.I

Em alguns minutos, folheei o passado e recordei teus grandes momentos. Lembrava, até rindo, os dias e as noites em que apertavas no coração centenas de casais brincando com o Amor. Abraçados e colados uns com os outros, como se a vida ali se iniciasse e tivesse fim: eu e tantos outros sussurrávamos aos ouvidos das jovens nossas queixas e nossos sonhos.I

Ao som das orquestras que tocavam todos os ritmos, embebecias de afeto os ibiapabanos de qualquer idade. Nada reclamavas, pelo contrário, apertavas em teu coração e em tua ternura feita de areia, cal, cimento e ferro de esplendor de uma época.II

Cultural e recreativo como fostes criado, ensinavas que “um homem, um grupo ou um povo são idealistas quando se aperfeiçoam e colocam sua energia a serviço de suas realizações”.I

Quando te idealizamos e construímos, sentimos no peito a vaidade própria dos que realizam. Não vacilamos diante de quaisquer sacrifícios. Entendemos aquela época, que a sociedade seria algo bela se uns se interessassem pelos outros.I

Ao te rever meses atrás, todo abatido, reformulei minha primeira ideia, concluindo que a sociedade de hoje é uma reunião de pessoas que não sabem o que querem. Quieto, triste e amargurado, mais parecias um moribundo e esquelético. Ali enterrado com tuas pernas no chão à dentro, seguravas o corpo esburacado pelo frio, sol, chuva e pela ingratidão.I

A piedade, meu saudoso Ubajara Clube, é coisa que pouca gente pratica. Quando a saúde, sequiosa e contente brinca de viver, é uma maravilha. Entretanto, no momento em que ela decai, temos medo até do medo.I

Vi o dia em que nascestes. Foi no dia 4 de setembro de 1949. Estavas suntuoso. Agora, com apenas trinta anos, não passas de um farrapo.I

A vida é assim, meu inesquecível Ubajara Clube. Ela é feita também de ilusões. Embora sejamos na Terra mais que os outros animais, esquecemos nossa posição de fazer o bem.I

Teus ex-presidentes e conselheiros, uns vivos, outros mortos, se engrandeceram com o sucesso. Não mais recordam daquelas festas de Ano Novo, Dia do Município, São João, Festas das Moças e tantas outras que arrancaram aplausos e lágrimas vitoriosas.I

Oh, amigos que ainda vivem. Vamos esquecer por alguns instantes as riquezas pessoais. Tal qual um mutirão, vamos reconstruir nosso agonizante Ubajara Clube. Vamos poupar-lhe o cemitério de entulhos, injetando em suas veias enfraquecidas o soro da vida, vigor da nossa determinação. Feito isso, tenho a mais absoluta certeza que se não ouvirmos o seu chorar agradecido, sentiremos no peito as soluções felizes da sua ressurreição.I

É por acreditar nos vivos, meu distante Ubajara Clube, que não perdi a esperança em te ver de roupagem nova. E por assim pensar, diminuiremos tuas amarguras e a felicidade que virá em breve, será por ti multiplicada para todos nós.I

Uma coisa te asseguro. Mais alguns dias estarei aí. Não sei como te encontras no momento, se morto ou vivo. Seja qual for o teu estado atual, irei me juntar a outros samaritanos para tudo fazer em teu benefício. Não ficarás mais complexado pelo desprezo dos homens e das mulheres. Tuas portas reabrirão, teus lustres hão de brilhar intensamente, teu piso limpo e escorregadio, permitirá mais uma vez que milhares de dançarinos, de todas as idades rejubilem seus espíritos numa confraternização de amor.I

Não perca as esperanças. Não se amofine ante seus próprios escombros. Ouça, não há nada mais digno do que o afeto ao próximo, mesmo sendo um prédio solitário e sem fala. Estou bem certo que aquele que adora alguma coisa deve abraçar contra o peito aquilo que já brilhou e não resplandece mais. Acredite, tiraremos teu organismo da masmorra do tempo, e se assim não fizermos, seremos covardes e indulgentes.I

Ninguém, meu saudodo Ubajara Clube, tem o direito de aniquilar uma obra de pioneiros. Não podemos agir como alguns, que não tendo condições de curar a morte, nem a miséria, nem a ignorância, decidiram não pensar em tais coisas. Não seremos idênticas as andorinhas, que visíveis no verão, desaparecem no inverno. Quem assim procede, são os falsos amigos, que nos rodeiam na prosperidade, mal vem o inverno da sorte, voam e perdem-se no horizonte.I

Estaremos ao teu lado, sejam quais forem as circunstâncias do tempo. Assim procedendo, significa ansiedade de ser bom e felicidade de ser justo. Renascerás tal qual as flores dessa amada terra que me viu nascer. Ressurgirás com novos encantos, “sairás das trevas à luz, da morte à vida e da dor à glória”. Até logo, meu Ubajara Clube. Mesmo emocionado como me encontro, receba no meu carinho as saudades dos teus dias fraternos e das tuas noites inesquecíveis.I

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Edmundo Macedo nasceu em Ubajara no dia 20 de Novembro de 1923. Filho de Francisco Bahé Macedo e Francelina de Oliveira Lima. Gerenciou empresas conceituadas em São Paulo. Durante a aposentadoria, voltou para a terra natal, onde atuou como professor de História nas escolas municipais. Editou com Monique Gomes o Informativo O Senhor da Canoa, impresso de periodicidade trimestral. O presente texto foi escrito em 1995. Edmundo Macedo faleceu no dia 1º de Outubro de 2004.I

3 تعليقات »

  • Vigevando said:

    Saudoso professor Edmundo;
    Falas, escreves com uma propriedade de um poeta, apaixonado pela vida e pela História! Que Deus o Tenha!

  • Carlos Henrique Alves said:

    Que maravilha. Que belo texto.Quantas lembraças. E para falar do Ubajara Clube, não podemos esquecer as belas festas de 31 de dezembro, quanto luxo, quanto glamour. Sempre muito bem animada pelos inesquecíveis ” Azes do Planalto” naquele tempo não chamavamos de banda e sim conjunto, era demais. Festas que iam até amanhecer o dia, moças com vestidos de gala, longos, rapaz a caráter, passeio completo(paletó). Era cada paletó. Durante o dia aquela correria, para conseguir um emprestado, muitas vezes o do ano passado, que estava quardado, ainda com cheiro de mofo. Que saudade. Passei toda minha adolescência curtindo ano a ano este baile. Aqui para falarmos daria um livro. Toda a junventude da época tem uma história a contar aqui. Namoros, choros, abraços, confraternizações, em fim , era relmente uma festa. Muota amizade, muita união, que hoje dificilmente se vê. Muitas biritas, amigos inesqueciveis. Gildo, Gildeleno, Urzezino, meus irmãos, Nego Alberto, Netinho, Grazinaldo, Zé Bulé, Eli Miranda, Murilo, Martonho, Mairton, e muitos outros, sem falar nas meninas, cada jóia rara. Quem ler este texto vai se lembrar tantos outras lembranças. Como disse anteriormente, dá um livro. Não vou mais me estender, só vou lembrar a todos dos antigos carnavais, organizados e preparados com muito carinho todos os anos de sua vida pela D. Aúrea. Quanta lembranças, meu Deus. Sou louco por esta terra maravilhosa, apesar de morar em Fortaleza deste de 1974. Nunca quero perder minhas raizes. Se Deus quizer no Carnaval de 2012 estarei novamente aí, no meu querido Ujabara para mais uma vez encontrar meus conterraneos. Abraço a todos. Carlos Henrique Alves

  • Monique Gomes (author) said:

    Oi, Carlos Henrique. Ótimas lembranças! Um abraço

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