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Recordando Zé Preto, por Edmundo Macedo – in memoriam

أرسلت بواسطة Monique Gomes في quarta-feira, 18 maio 2011لا تعليقات

Quase todos os dias, Zé Preto dava presença nas bodegas (mercearias) do Mercado Municipal de Ubajara. Homem simples, descontraído, olhos ligeiramente castanhos no rosto negro davam-lhe um charme raro. Contava e ouvia histórias valentes em defesa dos oprimidos.I

 Reclinado nos balcões das bodegas, conversava sobre o inverno, a seca e questionava os preços do café, feijão, milho, farinha, rapadura, gado leiteiro e para corte, plantio e colheita do caroá (planta de fibras têxteis) lá pras bandas do carrasco.I

 Entre um trago e outro de cachaça cajueiro do sítio dos Pereira, o assunto de maior atração era o momento político.I

 Zé Preto foi um fervoroso e fiel amigo do Major Pergentino Costa, chefe político de liderança comprovada em toda a Serra da Ibiapaba.I

 Este simpático negro vestia-se à capricho. Porte elegantérrimo, exibia feliz, camisas, calças, paletó e gravatas no mais alto estilo da época. Nos dias frientos ostentava um capote preto (casaco comprido que fazia parte do uniforme militar), não esquecendo o chapéu coco sobre os cabelos meio grisalhos. Quando aparecia à Rua 31 de Dezembro, rumo ao comércio central, seu andar firme parecia um príncipe indo ao encontro de uma princesa Muzunga de raça nobre. Gostava de jogar baralho com o seu grande amigo e protetor Major Pergentino Costa, sem dúvida um dos filhos de Ubajara, merecedor de uma estátua na Avenida principal da cidade. Seu amor à Ubajara faz parte da história.I

 O carismático Zé Preto teve como vício e feitiço maior a dança. Bailava todos os ritmos numa sintonia de passos e movimentos. Não perdia um samba (nome dado às festas nos sítios da época). Em salões enfeitados com papel crepon, bandeirolas e laços de fita, a festa não tinha hora certa para terminar. As latadas e terreiros de chão com barro batido ficavam apinhados de dançarinos. Das 8 da noite até madrugada Gançalo Galvão, o “sanfoneiro” mandava som no baião, samba, forró, chote, que rolavam soltos pelas quadras da serra. G Galvão e seus dois companheiros ( um no pandeiro e outro no ganzá ) não dispensavam a quente saborosa Cajueiro. Haja fôlego para acompanhar os dedos ágeis e preciosos nos botões niquelados da sanfona alaranjada do G Gaalvão. Cadê o tira-gosto? – gritavam panderista e ganzarista. De repente surge o maior festeiro e dançarino daquelas paróquias. Zé Preto, todo sorridente, felicidade nos olhos, trazendo nas mãos uma bacia de ágata tamanho médio. Dentro dela, pedacinhos de avoantes chumbadas na véspera, bem torradinhas misturadas na farinha da Serra Grande. Peça um chote, Zé Preto! – pedia Carolina do Pitanga. Num abrir e fechar de olhos, o chote com G. Galvão. Ninguém ficou sentado e nem de pé, todos no salão. A poeira subia rápida com cheiro de terra molhada. Os casais discretamente abraçados no vai-e-vem do chote, exclamavam à meia-voz: É hoje, Manoel! É hoje, Antônia! Tá bom demais. Ao término da quentura do chote, uma pausa.I

 Palmas e vivas, formas de agradecer daquela gente humilde e bonita, espalhada na região de clima mais saudável do nosso Ceará.I

 Convivi com este homem honrado e estimado. Em certa ocasião, falou-me: Deixe que eu leia sua mão direita, meu jovem! Ao esticá-la na posição certa, vi que estava amarelada. Rápido, pensei e concluí: foi a manga doce que comera na bodega da minha Tia Lúcia. De imediato apresentei-lhe de novo as linhas da minha mão. Zé Preto, bem calmo, revelou: Meu jovem Edmundo, irás viver um bocado. Nunca lute contra os indefesos, a luta será desigual. Fiquei em silêncio, baixei a cabeça, olhei o chão verde e senti emoção de viver mais um pouco. Os anos caminharam rápido, Um dia em São Paulo soube que o romântico e simpático Zé Preto havia nos deixado para sempre. Tenho absoluta certeza que ele está junto aos magos-advinhos em céu todo especial.I

 Zé Preto! Antes que termine este recordar, escute este recado: As dançarinas Pitanguenses, Pavuneneses, Olindenses, Gameleirenses, Amazonenses e Itaperacimenses nascidas no município de Ubajara, enviam-lhe de coração, eternas saudades. Até hoje sentem falta dos teus passos mágicos e estonteantes ao bailar o samba, o baião, o forró, a valsa e o nosso puríssimo chote.I

 Zé Preto! Estou pertinho dos 70 e uns anos. Vivi um bocado; quero mais, adoro a vida.I

 Tuas luzes.I

Edmundo Macedo nasceu em Ubajara no dia 20 de Novembro de 1923. Filho de Francisco Bahé Macedo e Francelina de Oliveira Lima. Gerenciou empresas conceituadas em São Paulo. Durante a aposentadoria, voltou para a terra natal, onde atuou como professor de História nas escolas municipais. Editou com Monique Gomes o Informativo O Senhor da Canoa, impresso de periodicidade trimestral. O presente texto foi escrito em 1996. Edmundo Macedo faleceu no dia 1º de Outubro de 2004.I

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