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Cicuta ou não cicuta, por Kleber Rocha

أرسلت بواسطة Monique Gomes في quinta-feira, 18 agosto 20114 تعليقات

Existe uma ligação entre o que é o real e o irreal, do que é o racional e o irracional. Na verdade, estamos tratando de opostos, o que é e o inverso. Dessa forma, para chegarmos a um entendimento sobre esse assunto, podemos tomar como exemplo de uma personagem importante para o conhecimento na nossa cultura, Sócrates, que foi acusado, condenado e morto por inspirar nos jovens de Athenas de sua época, uma forma de ver o mundo que não agradava aos considerados sábios e aos que exerciam o poder, principalmente, ele se dizia querer ensinar as pessoas a pensar por si, a examinar.I

Temos a informação de que a sua pena foi de beber um extrato retirado da cicuta, uma planta venenosa que asfixia e mata. Fato esse contado por um seguidor de Sócrates chamado Platão de maneira detalhada em um texto seu intitulado Fédon, na verdade um diálogo, onde o autor pelas palavras de Fédon de Elis, discípulo de Sócrates, conta a Equécrates o que aconteceu.I   

Fédon diz que próximo ao momento de Sócrates beber o veneno ocorreu um episódio em que se encontravam alguns de seus discípulos e Xantipa, sua esposa, na prisão. Ali então, a mulher se desespera com a situação, é acalmada e levada do local. Ao mesmo tempo, o filósofo depois de um dos guardas retirarem os grilhões que prendiam as suas pernas, fala sobre o prazer que estava sentido pelo alívio de não ter mais aquele objeto de ferro. Assim, ele indica que essa sensação boa é algo que está junto a dor, seguindo-a, onde começa uma termina a outra, pois depois que se sentiu solto da algema houve o fim da sensação ruim e o início da boa. Um oposto está ligado ao outro, como se fizessem parte de uma sequência, onde um termina o outro se inicia.I   

Portanto, podemos tomar esse motivo para falar de algo real. Real é que a maioria das pessoas, pela necessidade, precisa trabalhar, a obter sustento, para isso se faz necessária uma profissão e geralmente as profissões são ensinadas na prática, com o fazer diário, ou por meio de estudo, indo à escola em suas mais variadas possibilidades: pré-escola, ensino fundamental, ensino médio, ensino médio técnico, ensino superior e as suas instâncias (especialização, mestrado, doutorado e pós-doutorado).I

A questão é que para se chegar à profissão pela via do ensino, que deveria ser a mais justa e socialmente cidadã, temos que, como vimos, passar pela escola e ela, para obedecer esses critérios, ainda precisa uma boa caminhada. Porque, continuando a falar das coisas reais, um tanto raro é ver alguém imaginar, em qualquer hipótese, que o dinheiro não seja a prioridade de valor. Ter carros, poder viajar aonde quiser, ter casas, roupas as mais diversas, ter… e nisso, como algo real, as escolas formam, dentro de um meio que reproduz todas as buscas de dinheiro, onde as atividades são a disputa, a competição, a nota que valida o melhor. Ou em outras circunstâncias, a classe dos escolhidos, os alunos olímpicos, as faculdades que formam maus profissionais, os diplomas comprados, os vestibulares que avaliam um conhecimento que em sua maioria não se usa, só pelo saber mais para um dia ter mais.I 

Ao que nos parece, voltando ao parágrafo anterior, podemos notar que o real acaba chegando ao irreal, pois a profissão é algo real, mas o que fazemos na educação para chegarmos a ela parece beirar o irreal. Isso nos dá um alento a entender que esse texto é algo coerente, não está fugindo do tema, os opostos.I

Vejamos, por uma outra face, algo real também e além disso racional é que temos que aprender a viver com as outras pessoas. Para isso, a família tem o papel de nos educar, propiciando o saber conviver. Ou ainda, a escola, por também ser um ambiente de educação por natureza, o mesmo deve fazer, pois ali, necessariamente, o convívio sendo maior, o cuidado deve se direcionar mais nesse sentido.I

Contudo, ao que me parece nem escola, nem família estão conseguindo fazer bem as relações pessoais, pois boa parte dos pais trabalha muito querendo ganhar dinheiro, e o tempo para mostrar o que é ideal para o bom relacionamento com os filhos fica quase nada. Na escola, como se está sempre estudando para os concursos, os vestibulares e o ENEM, no suposto intuito de conseguir um bom emprego, o tempo para as relações humanas, fica para depois.I

Parece-nos, portanto que o racional se relacionou com o irracional, bem proximamente, pois se a prioridade das relações humanas em casa é pais no trabalho e filhos longe dos pais, o resultado poderá ser frequentemente marginalização dos filhos ou no mínimo má educação. De forma próxima, se na escola a prioridade é o emprego que possa obter dinheiro e estatísticas que façam propaganda para chamar mais alunos e mais dinheiro, o resultado sempre se coloca desumano com uma tendência destes se tornarem futuros profissionais de qualidade duvidosa ou de má vontade para o trabalho. Já, o outro lado disso acontece em muitas escolas alternativas, mesmo tudo sendo feito dentro de uma educação bem solidária, a tendência é a dificuldade financeira e alunos fora de uma realidade de trabalho.I

Então, para não sermos condenados por nós mesmos a beber o extrato da cicuta, o que podemos fazer é estudar mais o episódio citado sobre Sócrates para aprendermos a conviver com os contrários. Primeiro porque eles existem dentro de nós, pois sentimos prazer e dor, querendo ou não, e saber lidar com isso é importante. Depois, porque prosperidade parece ser algo crucial, porém existe um oposto racional e irracional, real e irreal na nossa relação com os valores.I

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Cicuta ou não cicuta – por Kleber Rocha, graduado em Letras com especialização em Estudos Clássicos pela Universidade Federal do Ceará, Professor de Literatura e Redação.I

4 تعليقات »

  • Vigevando said:

    Belíssimo texto! Caro professor kleber;
    Expressa bem essa grande verdade sobre a vida, e característica da existência que é o confronto. Expressa também uma idéia importante da filosofia de Heráclito de Éfeso: “Πόλεμος πάντων μὲν πατήρ ἐστί” isto é, “A guerra é o pai de todas as coisas.” Thomas Hobbes também menciona que nem todas as guerras são injustas e correlativamente, nem toda paz é justa, razão pela qual a guerra nem sempre é um desvalor, e a paz nem sempre um valor. Isso me faz refletir que confrontos são sempre necessários, assim como os desafios. Os desafios levam ao crescimento e desenvolvimento em todos os sentidos. Desinstala, desacomoda, desestabiliza o sujeito de seus medos; torna-o mais auto-confiante, mais seguro dos desafios futuros. A vida sem os desafios perde o sentido, fica monótona, vazia, angustiante.

  • kleber rocha said:

    Vigevando, companheiro fico grto pelas suas observações são grandiosas e me alegram saber que tenh lido o texto e que ele surte comentários como o seu. Abraço!

  • Monique Gomes (author) said:

    Os filósofos da natureza sempre foram os meus preferidos. Recomendo a leitura de “Apologia de Sócrates”. Muito bom. “A única coisa que importa é viver honestamente, sem cometer injustiças, nem mesmo em retribuição a uma injustiça recebida”.

  • kleber rocha said:

    Grato, querida! É um prazer e uma honra ler as suas palavras. p

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