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Memórias da Minha Terra – Crônicas da vida alheia, por Adrovando Cavalcante

أرسلت بواسطة Monique Gomes في segunda-feira, 5 setembro 2011لا تعليقات


Junho de 1970. Era fim de inverno. Fazia um frio de arrepiar, talvez a causa provável  fosse  uma brisa suave vindo do leste acompanhada por um anoitecer  de uma lua cheia, prateada. O dia tinha sido abafado, nuvens  densas impediam o sol de se manifestar  majestosamente.I

Porém, aquele dia seria muito especial. No pátio espaçoso da casa grande que servia  para secar a roça colhida, todos esperavam  ansiosos, se acotovelavam na esperança de conseguirem um lugar mais adequado, mais perto. Na  verdade, todos queriam ser testemunhas ocular  daquele grande feito. Eu era um menino muito levado, perspicaz  até demais  para época. Estranhava aquele comportamento, mas empurrado pelas circunstâncias, me via apreensivo bastante pra saber que algo estava para acontecer.I

A vila denominada Caroataí, também recebeu carinhosamente o codinome de Olinda. _ Sabe que ainda não tinha tido a curiosidade do porque desse apelido, talvez  procure saber, depois eu conto. Pois então, àquela época , era uma vila com propósitos de crescimento. Havia uma feira muito visitada aos domingos. As festas de santo, no mês de Novembro, reuniam  gente de todas as redondezas.No último dia das novenas, o encerramento  era realizado com uma festa dançante, um forro pé de serra com Artemio e seu Conjunto.I

Bem, como eu disse, era uma vila a caminho de uma patente maior, porém isso só veio muito tempo depois. Com menos oportunidade, após perder  os domingos de feiras  para Ubajara , as pessoas  com menos ocupação, gastavam suas tardes nas sombras das calçadas jogando conversa fora.I

Naquele mês de junho de 1970, quando o sol pendia para o poente, as calçadas altas, sombreadas,  começavam a receber os seus respectivos moradores, homens, mulheres, crianças, todos se aproveitavam  daquele momento  para colocar o papo em dia. Havia, porém  uma certa desconfiança  no trato do assunto que  pingava de boca a boca. Era de se estranhar, até os mais eloquentes  se preservavam  ao falar  do assunto. Outros  mais  animados provocavam  teorias tão absurdas  que chegavam  a levantar  duvidas quanto a realização do fato. Os religiosos mais cativos,  tratavam o assunto como obra do demônio e final dos tempos. Alguns, acredito, tenham pensado em um préstito  para obstruir a realização do grande evento que se realizaria  dali a alguns dias.I

Algumas famílias abastadas, somente estas e, eram poucas, dispunham de um aparelho de rádio, para à época, já antigo, que parecia mais um caixa de madeira com um enorme botão arredondado ao meio, que produzia um chiado irritante juntamente  com um som dissonante, tornando quase  impossível ouvir as notícias que chegavam da capital. Na casa do Sr. Manuel Rodrigues ( espere eu contar a historia desse homem, depois), um casa grande com janelas altas , portas largas e um piso alisado por um bom pedreiro, o costume rotineiro era ouvir  as noticias ao meio dia e  ao cair da tarde. Ficávamos  escorados nas janelas, muito atentos, imaginando  quem estava escondido ali, dentro daquela joça. A imaginação fluía em nossas mentes, e ai quando o Sr Manuel Rodrigues  notava a nossa presença, a gente entendia o seu olhar repreensivo e aos poucos todos se dispersavam.I

A frente alpendrada da casa estava lotada, havia pessoas sentadas em dois bancos grandes de mangueira,  fincados no piso rústico de  tijolos retangulares, produzidos ali mesmo, artesanalmente. Tinha uma cor já tão deslavado  que não dava pra saber se era pelo tempo ou alvejados por uma  espécie de areia, água e sabão, esfregados diariamente pelos pés e mãos calejadas das servidoras da casa.  Muitos  sentados na calçada outros  espalhados pelo vasto terreiro. Do lado direito da casa, em um galpão que servia de garagem, podia ser visto um Jeep, não sei bem o ano, talvez 1953 e uma motocicleta  Java, preta, muito bela, não conseguia tirar os olhos daquela  maquina. O patriarca da família, já havia  partido desta pra melhor, assim o Sr.Arlindo Holanda fazia as honras da casa como titular absoluto, já que era o único varão a residir naquela residencia. Era um visionário para sua época, um  homem com habilidades  na mecânica e elétrica. As viagens aos grandes centros  como Fortaleza e Teresina lhe proporcionava   estar sempre por dentro das novidades. E foi numa dessas viagens   que o objeto de tanta curiosidade, que  atiçou a imaginação de toda uma vila, estava agora ali, na casa grande, esperando saciar  a ansiedade  de todos.I

Um silencio mórbido reinava  indiferente  ao vento frio  que começava a soprar .Nada se ouvia, a não ser o piar da coruja a procura de se agasalhar. As chamas das lamparinas a querosene  prostradas nas janelas refletiam uma fina  e opaca luz, caricaturando os personagens dessa noite tão esperada. O Sr. Arlindo, um tanto sorridente, aparece na porta principal, faz um breve cumprimento e pede que entrem com calma e se alojem  pela  sala. Sem muito ajustes e esbanjando simplicidade, a sala continha  algumas cadeiras de cipós, um sofá surrado ao centro, um cofre de ferro antigo junto  a uma das colunas que  davam pra um corredor que levava à sala de jantar e a cozinha. As pessoas se aglomeravam, uns sentados no chão, em pé,  escorados nas paredes e outros que ficaram do lado de fora  e tentavam encontrar  uma brecha  através das portas e janelas.I

Uns  dois km e meio separava a Olinda da casa grande, palco do grande acontecimento. Uma procissão ganhava  as estradas estreitas  de areias soltas e barro entre uma vegetação rasteira e densa. Aquela noite, a lua já se apresentava  altiva, com uma auréola a querer elevar-se, numa dicotomia de tons suaves,  transformando as noites  de breus  em uma pálida luz fosforescente, esperando amavelmente, como testemunha, o retorno daquelas pessoas simples, ávidas  de satisfazer suas  curiosidades, ou quem sabe desfazer seus receios.I

O Sr. Arlindo Holanda, patrono daquele acontecimento, cruzou com dificuldades  por entre os presentes, o que o separava da cômoda estreita  e esguia, uma espécie de mesa pequena de decoração com gavetas  sobrepostas. Assentada, sobre a cômoda,  com um lençol  branco de brim a cobrir-lhe, talvez para fazer surpresa ou apenas para proteger da poeira,  uma caixa quadrada de nove polegadas, ligadas a uma bateria por dois fios elétricos. Orgulhoso, isso dava para notar no seu  semblante,  o Sr.  Arlindo Holanda suspendeu o lençol e então todo aquela expectativa interessada se transformou num apático hummmmm…I

Um ponto de luz surgiu no centro daquele quadro de vidro e foi aos poucos crescendo e tomando toda a tela. Uma  luz forte  se projetou sobre  a penumbra  da sala  e então as Imagens um pouco ainda distorcidas foram tomando formas  e o som das vozes  foram dando vidas aqueles personagens.I

Era a Televisão. A primeira a chegar na minha Olinda.I

Há continuação.I

Memórias da Minha Terra – Crônicas da vida alheia, por Adrovando Cavalcante, empresário.

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