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Carta aos alunos do Projovem Urbano, por Monique Gomes

أرسلت بواسطة Monique Gomes في domingo, 13 novembro 20117 تعليقات

Prezados alunos do Projovem,I

Lembro do primeiro dia de aula perfeitamente como se fosse hoje. Foi um bate-papo. Depois de me apresentar, contei como foi a minha trajetória no mercado de trabalho, uma vez que a minha missão a partir daquele momento seria dar aulas de Qualificação Profissional em Turismo. Muitos de vocês acharam engraçado quando relatei minha história com o jornalismo, sabendo que uma mesma pessoa poderia desenvolver habilidades e ter diversas ocupações, como, a exemplo do jornal, repórter, fotógrafo, redator, revisor, diagramador e editor. Em seguida, pedi que vocês redigissem uma carta endereçada a mim, contando como foi que aconteceu a história de vocês no mercado de trabalho, desde o início. Eu levei até uns envelopes para caracterizar uma carta de verdade. Não foi um mero exercício. Aquelas cartas, que guardo comigo até hoje, são reveladoras. Fiquei extremamente comovida com as histórias de vocês e entendi o quanto é difícil, por exemplo, acordar quatro da manhã para trabalhar e à noite ainda ter entusiasmo para estudar, ou ter um filho e ter que abandonar os estudos por não ter com quem deixá-lo.I

No início eu achava super estranho sair de uma sala de aula e ter que repetir tudo que eu tinha falado para a outra turma. Ainda estava me acostumando com a profissão de professora… Hehe. Também tive que aprender a dosar a minha paixão pelo jornalismo, pois algumas vezes eu me peguei anotando pautas no caderno de planejamento ou entrevistando vocês, que sempre me traziam notícia de acidentes, assaltos, etc. Logo eu me dava conta que ali dentro a minha praia era outra e então seguíamos com o livro didático sobre Formação Técnica Geral. Nossos debates renderam uma notícia, quase um documentário: São Benedito, pétalas do crack, que traz um relato surpreendente sobre o uso do crack aqui no interior. Muita gente me odeia por isso, mas um jornalista é ciente da sua missão, que é informar para transformar. São ossos do ofício.I

Gincana de Turismo foi um dos momentos mais divertidos do Projovem. Eu não consigo parar de rir quando vejo a palavra “monumento”. Só lembro da etapa “Soletrando o Turismo”: quando eu apresentei essa palavra e um de vocês, ele, para tirar a dúvida antes de soletrar, me perguntou: É monomento? Eu: monumento. Ele: Ah, monomento, né? Eu: Sim, monumento. Ele: M-O-N-O-M-E-N-T-O… A segunda fase da Gincana, que exigia a aplicação correta da palavra em uma frase, me revelou que vocês estavam entendendo o tema estudado, e eu fiquei satisfeita e orgulhosa.I

A Aula de Ecoturismo foi outro momento inesquecível. Principalmente para mim, que nunca na história desse país tinha visto vocês ficarem de boca aberta, paralisados, sem tagarelar… Tudo porque era a primeira vez que todos viam um cara saltar de asa delta bem de pertinho. Emocionante.I

Nesse final de curso, acho importante dizer algumas palavras. São coisas que eu já disse, mas que serão imortalizadas e registradas nessa folha de papel. Muitos de vocês não tiveram um pai ou uma mãe conscientes da importância dos estudos. Eles não têm culpa. Por isso, a sua responsabilidade será, além de continuar a estudar, encaminhar seus filhos para o universo escolar para que essa história não se repita. Nós sabemos que estudar não é a coisa mais agradável do mundo. Tem algumas disciplinas que gostamos mais, outras menos. Mas é assim mesmo. A vida não é um parque de diversões. O sistema funciona dessa forma. Estudar é necessidade e uma prioridade para quem deseja ter um bom emprego e um salário digno. Não esqueçam que a juventude é passageira e o momento de trabalhar para garantir segurança e conforto na velhice é agora.I

Um fato que me causou espanto foi a falta de ambição da grande maioria de vocês. Quando digo ambição, não me refiro a alimentar o sonho de ter um carro importado ou uma roupa de grife. Estou me referindo à qualidade de vida. São coisas simples como desejar boa alimentação, ensino de qualidade para os filhos, tratamento de saúde, lazer, entretenimento e investir no futuro. Muitos não estão satisfeitos com o trabalho, então, porque continuar nesse comodismo se é possível encontrar uma oportunidade melhor?I

O turismo não é a atividade econômica mais popular na cidade de vocês no contexto atual, mas tem tudo para prosperar. Vocês têm diversas oportunidades de emprego, como hotéis, pousadas e restaurantes.I

Observem: Existem dois tipos de oportunidades. Tem uma que bate na porta da sua casa, te pega pela mão e diz: Vem! A outra está em algum lugar, e você precisa buscá-la. Buscar a oportunidade significa, além de continuar os estudos, colocar um currículo debaixo do braço e sair de porta em porta. Vocês devem se lembrar do esquilinho da Era do Gelo, tão determinado a pegar as nozes. Ele não perdia o estímulo diante das dificuldades. Isso é automotivação.I

Quando decidirem buscar uma oportunidade, nunca esqueçam: procurem a pessoa certa, o pessoal de recursos humanos, o gerente ou o proprietário. Apertem a mão dele ou dela com firmeza e se comuniquem sempre olhando nos olhos. Não precisa ter vergonha. Vocês estão buscando informações sobre trabalho e oferecendo um serviço. Não estão pedindo um favor.I

Enfim, é hora da despedida. Sou muito grata a todos por tudo que aprendi. Tenho vocês todos no meu coração. Desejo  um ótimo Natal e um 2012 mais positivo, mais otimista, cheio de boas reflexões e boas ideias sobre a vida.I

É loucura odiar todas as rosas porque uma te espetou. Entregar todos os teus sonhos porque um deles não se realizou, perder a fé em todas as orações porque em uma não foi atendido, desistir de todos os esforços porque um deles fracassou. É loucura condenar todas as amizades porque uma te traiu, descrer de todo amor porque um deles te foi infiel. É loucura jogar fora todas as chances de ser feliz porque uma tentativa não deu certo. Espero que na tua caminhada não cometas estas loucuras. Lembrando que sempre há uma outra chance, uma outra amizade, um outro amor, uma nova força. Para todo fim um recomeço! O Pequeno Príncipe.I

Monique Gomes – Jornalista socioambiental pela DW Akademie, formada em Turismo e Hotelaria pela UVA, graduada em Letras com hab. em Português pela UFPB, estudante de jornalismo científico online, repórter fotográfica, redatora e Editora do Jornal Folha Ubajarense

7 تعليقات »

  • Agildo Siqueira said:

    Monique, lendo esta carta aos seus alunos. Me lembrei de um filme que vi, baseados em fatos reais, que gerou um livro. O filme e o livro, chamam-se Escritores da liberdade. Conta a historia de uma professora que enxergou em seus alunos o que ninguém mais viu. Assista é ótimo vc vai se indentificar.

  • Monique Gomes (author) said:

    Oi, Agildo. Conheço o filme, está na lista dos meus preferidos. É um filme revolucionário, e eu adoro revolução. O fato de você ter lembrado da protagonista ao ler a minha carta, é motivo de felicidade para mim. Obrigada por relatar isso aqui na seção de comentários

  • Vigevando said:

    Apesar do filme trazer uma temática de transformação social, todavia há muita “utopia”! Sonhar é bom, desde que mantenhamos o nosso pé no chão… Sei que a responsabilidade social dos professores é muito grande! Mas o filme não deixa de ser sensacionalista ao colocar a responsabilidade toda para a professora (coitada), deixou de viver até sua vida pessoal para se ater à sua profissão. Há muita demagogia também! Percebam que houve até separação conjugal, pois a mulher (professora) era muito aficionada em sua profissão de tal modo que influenciou tremendamente sua vida pessoal. Ao mesmo tempo que é uma história melancólica é traz o aspecto da superação. O aspecto trágico é o de querer passar para o telespectador a importância do papel do professor, levando em consideração à transformação social destituída da realização pessoal e familiar do profissional, etc…

  • Monique Gomes (author) said:

    Olá, Vigevando. Claro que o filme tem um lado que pode ser considerado utopia: isso é cinema. Mas não acho sensacionalismo o fato deles mostrarem o peso da responsabilidade todo para a professora, que perdeu o marido por se dedicar tanto ao trabalho. Muito pelo contrário, essa é uma grande realidade. Grande parte das famílias entregaram a responsabilidade de educar seus filhos exclusivamente para a escola, o professor é que se vire. É um excelente filme, que mostra ainda que é possível, sim, quebrar velhos preconceitos.

  • Agildo Siqueira said:

    Vigevando eu concordaria em parte com o seu comentário, se o filme citado por mim não fosse baseado em uma história real. E mostra que algumas pessoas que se dizem professores, ainda praticam a impatia,no sentido de colocar-se no lugar do outro. Hoje em dia isso é raro não é professor,é visto até como uma utopia, que sabe até demagogo. Monique tem algo que vc sempre fala e com muita razão,que a fámilia acha que a educação é responsabilidade do professor, mas o que a constituição diz, é que a educação é responsabilidade e dever do estado e da fámilia.

  • Vigevando said:

    Caro Agildo, o fato de filmes serem baseados em fatos reais não elimina a possibilidade de “exageros”, “sensacionalismos”, “anacronismos”! Muitos filmes Exageram tal fato exibido, com muitas cenas emotivas e de certa forma generalizando o tema exibido e distorcendo a realidade que é bem mais ampla; Como você bem pontuou em seu argumento: “A educação é dever do Estado e da família”, o filme não faz críticas à negligência por parte do Estado e muito menos da família e passa apenas um lado da realidade de forma exagerada.

  • Vigevando said:

    Sobre a crítica ao cinema ou “indústria cultural” quem tiver alguma curiosidade, pesquiseo pensamento de Theodor Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer. É bem interessante!

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