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Bardega é ponto de encontro e cultura em Tianguá

أرسلت بواسطة Monique Gomes في segunda-feira, 21 setembro 2009لا تعليقات

bardegaAmauri Didi transformou o comércio herdado da família numa bardega: mistura de bar, bodega e espaço cultural para reunir amigos e visitantes (Foto: Wilson Gomes).I

Objetos antigos dão um toque especial à decoração do Bardega do Didi, que já serviu de inspiração para os boêmios e poetas que por ali passam. O Bardega do Didi vem fazendo sucesso com seus quitutes tradicionais, bebidas e ambientação rústica.I

Tianguá “Eu fui encontrar cultura/No canto de uma cidade/Vi arte e literatura/Transformada em amizade/E através de um colega/Eu encontrei o Bardega/Para minha felicidade/”. É desta forma que o poeta Lucarocas descreve um dos “points” mais aconchegantes desta cidade, uma bodega que virou bar e que virou ponto de cultura popular e de pesquisa para aqueles que estão sempre atrás de conhecimento. O local, denominado hoje de Bardega, não poderia ser diferente, tinha que ser bastante exótico. Na parede, um painel onde se faz a mostragem de cordel. Nas mesas dentro do bar, um livro para autografar. As mesas que ficam na calçada são formadas por tampo de carretel recolhidos nos assentamentos da cidade.I

O Bardega é administrado por Amauri Pinto de Carvalho, o Amauri Didi. O espaço cultural, como ele gosta que seja chamado, tem uma história bem interessante. Sua criação se deu na virada do século XXI, quando a família tinha uma tradição de bodega há pelos menos 60 anos, época da venda do pão, do milho, da farinha, do amendoim, que começou com Francisco Pinto de Carvalho, o “Seu Didi”, patriarca que passou o comércio para os descendentes até chegar às mãos de Amauri Didi.I

 

Medicinal

Como todo dono de bar, Amauri é bom de papo. Ainda mais se o cliente pedir o carro-chefe da casa, a famosa “Medicinal”, um coquetel feito à base de cachaça serrana, mel de abelha e limão. A bebida é servida em copos de barro feitos por uma comunidade local. Já o mel é produzido pelo próprio dono, em seu sítio. Somos convidados a apreciar: dá uma mexidinha, suga pelo canudo de madeira e o sabor toma toda a boca. Para acompanhar, um feijão verde com queijo coalho bem gostoso, ou um dos pratos mais comentado, as tanajuras assadas, típico do povo serrano, herança dos índios Tabajara. Uma identificação que se constitui em tradição que os distingue entre os cearenses. Tanajuras como alimento, é altamente valorizada na região.I

Amauri Didi conta que o hoje Bardega teve que ficar um período de portas fechadas, diante da necessidade do dono de continuar nos estudos. “A faculdade, que fazia em Sobral, roubou uma boa parte do meu tempo, que antes era dedicado a cuidar de uma tradição deixada pelo meu pai que foi a bodega, uma pequena mercearia. Tendo que ir e voltar todos os dias, fui perdendo parte dos clientes do comércio de mercadorias. Por causa disso ganhei outro tipo de clientela: os amantes da noite puxados com uma boêmia de um bom papo que vai de política à filosofia, que vinha sempre aqui no final do dia e pedia uma cervejinha, regada sempre com uma boa música da MPB regional”, revela.I

 

Grupo cultural

Daí encabeçado pelo seu sócio-proprietário e mais um grupo de amigos, que conta com profissionais liberais, professores e artistas, esses amantes da cultura e defensores da inclusão da educação e do social sempre se reunindo no Bardega criaram o Grupo de Estudos e Valorização da Cultura Tianguaense (Grecult). Com o grupo, surgiu grandes projetos iniciados ali mesmo: a Noitada Cultural de Artes Integradas, realizada duas vezes por ano; a criação do Bloco Cultural Tanajuras da Serra, além de um acervo de pesquisas e produção de exposições de fotografias históricas.I

A bodega passou por uma transformação muito brusca, uma intervenção para chegar à forma em que se apresenta hoje. “Isso foi uma criação dentro de um processo, não foi uma criação rápida”, destaca. Amauri usou como modelo para essa transformação as andanças movidas por uma cultura popular. “Eu pude perceber que poderia, mesmo com um espaço pequeno, proporcionar à população não só de Tianguá, mas pessoas que viriam visitar, um nicho diferenciado da cultura local”.I

Amilcar Holanda é um desses freqüentadores assíduos. Gosta do ambiente, principalmente quando aparecem caras novas. “Vi que vocês estavam aqui, então me interessei em saber o que estariam fazendo e o que estava acontecendo”.I

A decoração do Bardega é toda rústica. Objetos antigos ficam pelos cantos. É possível encontrar relíquias como vinis, máquina de escrever e cédulas velhas. Outra tradição é servir a seus freqüentadores tanajuras assadas. Também conhecidas como içá, era um dos pratos favoritos do escritor Monteiro Lobato. “Engraçado, porque mesmo depois de séculos, aqui ainda se conserva esse hábito herdado dos índios. Aqui tanajura é comida, é dança, é música, é cordel”, explica Amauri. Se preferir, pode levar os ingredientes pra casa: garrafas de mel, cachaça e feijão verde.I

 

PONTO DE CULTURA
Bardega do Didi inspira cordelista

Tianguá. Pelo Bardega do Didid já passou muita gente. O poeta Luiz Carlos Rolim de Castro, mais conhecido como Lucarocas, foi um deles. Gostou tanto do ambiente que escreveu um cordel para homenagear o ponto de cultura e encontro. “Conhecer o Bardega é fazer um pouso na cultura com a suavidade da paz serrana, é aquecer-se com a ´Medicinal´ e embalar-se com a musicalidade do ambiente, que faz a alma crescer na simplicidade da poesia, do romance, num momento de encontro, onde a solidão não faz companhia e a alma se embriaga de amor. Uma noitada no Bardega do Didi é uma oração aos deuses notívagos da boêmia. É mágico”, destaca o poeta.I

Lucarocas é professor de literatura e cordelista. Ele esteve por diversas no Bardega do Didi. Na sua última visita, em julho do ano passado, resolveu escrever um cordel, que narra como é para ele o Bardega. Diz Lucarocas, em um dos trechos do seu cordel que o Bardega é na verdade um espaço cultural, uma coisa diferente.I

“Lá o que se escuta são os discos de vinil colocados na vitrola”. Lucarocas também faz menção à parede que foi pintada de branco e onde foi montado um painel de cordéis, homenageando aqueles que se foram e não voltam mais.I

Para o escritor repentista, no Bardega tem espaço para a prosa e a poesia. É no entorno do balcão que se pode prosear à vontade, sentado em tamboretes feitos de madeira pura, bem próximo aos tonéis onde é armazenada a Medicinal. “O Amauri Didi é um desses homens de cultura que faz do sonho uma realidade, um cidadão de verdade”, disse Lucarocas, acrescentando que é dessa forma que ele consegue atrair a clientela.I

“Eu vi que nas prateleiras de teto existe uma porção de objetos antigos que algum dia tiveram utilidade. Dá para parar no tempo e voltar ao passado, além de pouca luz que faz o clima ficar mais animado”, descreve Lucarocas, que chama a atenção para a existência de um par de chifres que fica praticamente abandonado. Sobre as iguarias, o poeta faz alusão ao queijo, à rapadura, ao caldo de feijão servido em cumbuquinhas de barro, à lingüiça na fritura, ao pirão, às frutas e verduras, sem esquecer a pinga com limão, a já muito comentada Medicinal. “Medicinal é receita que não se vende em bodega. É um coquetel totalmente natural. Ela é feita somente pra quem é muito colega, é como se fosse um pacto de amizade”.I

Amauri Didi trata a cultura como um verdadeiro vício. “Você se alimenta dela. Ela te puxa, ele te leva a rebuscá-la, por isso vejo como um vício, uma necessidade de se ter, sem esquecer que pode ser considerada uma profissão se vista do lado de uma política cultural”.I

 

FIQUE POR DENTRO
Içá é formiga que se come na zona norte do Estado

Içá ou tanajura é a formiga fêmea da saúva. No Ceará, também é chamada popularmente de formiga de asa ou formiga de roça. Em tupi-guarani, significa “formiga que se come”. Ainda que a entomofagia (prática de alimentar-se com insetos) seja vista por muitos como um costume de gente primitiva, em diferentes partes do País esse alimento é considerado uma verdadeira iguaria. O consumo de içá tem origem em hábitos indígenas. O costume foi assimilado pelos colonizadores e hoje as formigas são consumidas em farofas ou ao natural. São torradas com água e sal, servindo de aperitivo, acompanhando bebidas fermentadas ou destiladas. Há, ainda, relatos de outros modos de preparar o alimento, como é o caso do prato composto por abdômens ovados de tanajuras com arroz e feijão, sendo aí a formiga utilizada como substituto da carne. A parte comestível é o abdômen da formiga, conhecida popularmente como a “bunda de tanajura”. A preparação mais apreciada e relatada ensina que as formigas devem ser lavadas e fritas em sua própria gordura, manteiga, banha ou óleo, para ficarem crocantes, adicionando-se, então, pimenta do reino e sal. No Ceará, as tanajuras têm sido vendidas como afrodisíaco no comércio. Há, assim, uma relação da tanajura com o corpo idealizado da mulher: cintura fina e ancas largas.I

 

Fonte: Diário do Nordeste

http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=672557

Mais informações
Bardega do Didi
Rua 12 de Agosto, cruzamento com Poeta Louro Menezes
De quarta a domingo, às 17h.

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